Cimangola enfrenta desafios estruturais de gestão e funcionamento
Cimangola enfrenta desafios estruturais de gestão e funcionamento
Divergências entre o discurso oficial da cimenteira e a realidade do mercado reacendem debate sobre produção, distribuição e preços do cimento em Angola
Luanda — A Cimangola, principal cimenteira do país, afirma manter níveis estáveis de produção diária de clínquer e cimento, fixados em cerca de cinco mil e cinco mil e 500 toneladas, respetivamente. As garantias foram dadas pelo Presidente do Conselho de Administração (PCA), Agostinho Silva, no final de uma visita de constatação à unidade fabril, realizada no âmbito do programa “Um dia na fábrica com a imprensa”.
Segundo o gestor, a empresa opera no limite da sua capacidade instalada anual, estimada em um milhão e 500 mil toneladas, assegurando aproximadamente 70 por cento da cobertura do mercado nacional. O PCA garantiu igualmente que os preços à saída da fábrica permanecem inalterados, variando entre cinco e seis mil kwanzas por saco de cimento.
Contudo, a realidade observada no mercado aponta para um cenário diferente. Em vários pontos de venda, sobretudo em Luanda e noutras zonas urbanas de elevada procura, o preço do saco de cimento tem atingido valores entre 10 mil e 11 mil kwanzas, quase o dobro do preço oficialmente anunciado.
Distribuidores, empreiteiros e operadores do setor da construção civil contestam as declarações da administração da Cimangola e apontam para uma escassez efetiva do produto. De acordo com estas fontes, a quantidade disponibilizada diariamente é insuficiente para responder à procura atual, fator que tem contribuído diretamente para a escalada dos preços.
Alguns operadores relatam ainda atrasos recorrentes no fornecimento e dificuldades logísticas que afetam o normal andamento das obras públicas e privadas. “O problema não é apenas o preço, mas sobretudo a falta de cimento no mercado”, afirmou um distribuidor, sob condição de anonimato.
Embora a administração reconheça constrangimentos no fornecimento de combustível para alimentar os fornos, garante que esses fatores não comprometem a produção. Especialistas do setor industrial, no entanto, alertam que operar de forma contínua no limite da capacidade instalada pode indicar fragilidades estruturais e ausência de margem de segurança operacional.
Outro ponto frequentemente mencionado por agentes do setor é o alegado desvio de cimento ao longo da cadeia de distribuição. Segundo relatos recorrentes, parte significativa do produto não chega aos circuitos formais de comercialização, criando escassez artificial e pressionando os preços ao consumidor final.
Paralelamente, a Cimangola tem investido na diversificação das suas atividades, com a produção de betão e agregados e a abertura de novas minas de extração de matéria-prima. Embora estratégicas a médio prazo, estas iniciativas não têm impacto imediato na normalização do abastecimento de cimento.
Entre os números apresentados pela gestão e a realidade sentida no terreno, cresce a perceção de que a Cimangola enfrenta desafios estruturais de gestão e funcionamento. Enquanto persistirem estas divergências, consumidores e empresas continuam a suportar os efeitos do aumento do preço do cimento, num contexto económico já pressionado pela inflação e pelo elevado custo de vida.
