Especial Investigação: O Contraste das Promessas em Angola
Enquanto o Executivo demonstra uma pressa invulgar em reconfigurar o Programa de Privatizações (PROPRIV) para entregar sectores estratégicos como a banca e as telecomunicações à nova elite empresarial, as promessas feitas aos heróis da pátria parecem cair num limbo burocrático sem fim.
Vicy António: Uma lenda do futebol angolano esquecida pela burocracia estatal.
O caso de Vicy António, uma das maiores referências do futebol angolano, é o retrato fiel desta “Engenharia da Escassez” de vontade política para com o povo. Passados seis meses desde a inauguração do Estádio do Uíge, a antiga estrela vive apenas da esperança de ver cumpridas as promessas de uma moradia e apoio para a sua escola de futebol.
O Contraste do Descaso
Enquanto figuras como Vicy aguardam, o governo acelera a venda de ativos como a Unitel, ENSA e TV Zimbo. Para a elite de João Lourenço, há “aprovação superior” e prazos rigorosos; para o povo e os seus ídolos, há apenas o “segredo dos deuses”.
Passados quase seis meses desde a inauguração do Estádio do Uíge, uma moderna infraestrutura desportiva que homenageia uma das maiores referências do futebol nacional, Vicy António, a antiga estrela vive esperançosa em ver cumpridas as várias promessas que lhe foram feitas.
Recorda que, quando recebeu pela primeira vez a informação de que o seu nome seria atribuído ao novo estádio nacional na sua terra natal, ele, a família e os amigos mais próximos alegraram-se, pois acreditavam que, por detrás desta homenagem, viriam alguns benefícios capazes de melhorar as suas condições de vida.
Realça que, entre as promessas feitas, constam a disponibilização de uma moradia, a exploração de um dos dois restaurantes do estádio e um meio de transporte que lhe permitisse deslocar-se regularmente à cidade do Uíge para acompanhar “in loco” todo o movimento do estádio, enquanto permanecesse em Luanda.
Homem temente a Deus, afirma manter a fé, tal como aconteceu quando soube, pela primeira vez, que o novo estádio teria o seu nome.
Depois da inauguração, a 3 de Novembro, revelou: “Já tive um encontro com o ministro da Juventude e Desportos e recebi garantias de que as promessas feitas seriam cumpridas.” Recorre ainda ao adágio popular segundo o qual a esperança é a última coisa a desaparecer.
À antiga estrela foi igualmente prometido um espaço na vila de Viana, em Luanda, para a instalação do seu projecto de escola de futebol, que há muito tempo permanece engavetado por falta de suporte financeiro.
De acordo com Vicy António, a ideia é implementar o projecto nas cidades do Tombwa, província do Namibe, Luanda e Uíge, contando já com a garantia técnica do também ex-futebolista André Nzuzi, agente da FIFA. Segundo ele, trata-se de uma figura com qualidades para impulsionar o referido projecto, que prevê formar centenas de crianças.
Desde a inauguração do estádio nacional, Vicy António nunca regressou ao Uíge por razões financeiras. Enquanto isso, continua à espera de ser chamado pela pessoa indicada, que já o contactou algumas vezes. Solicitado a revelar o nome dessa pessoa, que recebeu orientações do ministro para acompanhar todo o processo ligado a Vicy e ao estádio que leva o seu nome, a antiga estrela preferiu manter a informação em segredo. No entanto, adiantou que o referido responsável já esteve na sua residência, no bairro Palanca, em cumprimento das tarefas que lhe foram incumbidas.
Sobre o estádio, Vicy António afirma ter informações de que a moderna infraestrutura tem sido utilizada, graças a um jovem amigo que gentilmente lhe transmite tudo o que ali acontece, com destaque para os jogos da segunda divisão nacional, vulgarmente conhecida como Segundona.
Este cenário reforça a percepção de que a Assembleia Nacional falha na sua missão essencial de fiscalizar e defender os interesses dos cidadãos. Defender o legado nacional deveria ser um dever constitucional, mas tornou-se um conceito decorativo perante a voracidade económica dos novos empresários do regime.