Há fotografias que o poder prefere que permaneçam mudas
Retratos que acusam
Há fotografias que o poder prefere que permaneçam mudas. Não porque mintam — mas porque lembram. E lembrar, em política, é perigoso quando o presente contradiz o passado.
Segundo a narrativa associada a estas imagens, estamos em 1986/1987, no Leste de Angola, num período em que a guerra definia não apenas fronteiras, mas a própria legitimidade do poder. A cena teria ocorrido no Moxico, na casa do então comandante regional José Pedro Fernandes da Silva (Zé Pedro), após operações militares bem-sucedidas na região de Kazombo.
O ambiente é revelador: mesa partilhada, copos cheios, charutos acesos. Não há protocolo, não há distância, não há encenação. Há proximidade. Há risco vivido em comum. Há a guerra ainda quente, não transformada em retórica.
Segundo o relato, entre os presentes estaria João Lourenço, então comissário político na região, em contacto com estruturas locais e com tropas cubanas, cuja presença simbolizava a dimensão internacional do conflito angolano. Os charutos — alegadamente oferecidos pelo comandante cubano Ochoa — são mais do que um detalhe pitoresco: são o retrato cru de uma época em que Angola era palco da Guerra Fria e os seus dirigentes actuavam dentro da tempestade, não a partir de gabinetes climatizados.
Estas imagens colocam uma pergunta incómoda ao presente: o que aconteceu ao poder que conhecia o custo real das decisões? O poder que se sentava à mesa com quem combatia, que via o sangue antes das estatísticas, que entendia a vitória não como discurso, mas como sobrevivência.
Hoje, o contraste é brutal. O poder governa à distância da consequência. Decide sem sentir. Reforma sem medir o impacto humano. Fala em sacrifícios colectivos enquanto protege círculos restritos. A guerra ficou no passado — mas a disciplina moral que ela impunha também.
Estes retratos expõem uma ruptura profunda: entre a legitimidade forjada no risco e a autoridade exercida no conforto. Entre dirigentes que partilhavam o mesmo fumo e os mesmos perigos, e uma elite contemporânea frequentemente acusada de blindagem, centralização e indiferença social.
Não se trata de romantizar a guerra. Trata-se de reconhecer que a memória do sofrimento deveria produzir prudência, empatia e responsabilidade. Quando isso não acontece, a memória transforma-se em peso morto — ou, pior, em capital simbólico usado apenas quando convém.
Os retratos não absolvem ninguém. Confrontam. Confrontam quem governou em tempos de escassez e hoje governa em tempos de desigualdade crescente. Confrontam a narrativa de continuidade moral entre o passado revolucionário e o presente administrativo.
Se o poder nasceu à mesa, entre copos e charutos, depois da batalha,
por que hoje parece incapaz de sentar-se com o país real?
Se outrora conhecia o preço da vitória,
por que hoje banaliza o custo das suas decisões?
Estas fotografias não pedem nostalgia. Pedem coerência.
E, talvez por isso, incomodem tanto.
