TURISMO EM ANGOLA: FRACASSO DO MINISTRO MÁRCIO DANIEL ESTA VISIVEL
T TURISMO EM ANGOLA: FRACASSO DO MINISTRO MÁRCIO DANIEL ESTA VISIVEL
Apesar de discursos, promessas e esforços anunciados, o sector do turismo continua sem resultados visíveis, alimentando críticas de que o Executivo tem sido sistematicamente enganado sobre o verdadeiro estado da área.
Os esforços para alavancar o turismo em Angola têm sido esboçados no plano do discurso oficial, mas na prática continuam sem reflexo concreto no terreno. Cresce, por isso, entre vários observadores e sectores atentos da sociedade, a convicção de que o sector permanece estagnado e sem rumo, apesar de o país reunir condições naturais e geográficas para transformar o turismo numa poderosa alavanca económica.
Há quem sustente mesmo que o Presidente da República terá sido “sistematicamente” enganado em relação ao verdadeiro estado do sector. Segundo um antigo funcionário público, que pediu anonimato por receio de represálias profissionais, há mais de um ano o Chefe do Executivo terá orientado o Ministério do Turismo a apresentar um diagnóstico real sobre as razões do bloqueio do sector, mas até hoje, segundo a mesma fonte, não foi apresentada uma resposta convincente.
A polémica ganhou nova dimensão com a vinda a Angola do actor norte-americano Will Smith, visita que foi apresentada em alguns meios como uma acção de promoção turística. No entanto, em vários círculos nacionais, o episódio foi recebido com fortes reservas, sobretudo por alegações disseminadas nas redes sociais de que o artista teria sido transportado num avião do Ministério da Administração do Território (MAT), com as despesas da sua estadia a recaírem sobre o erário público.
Até ao momento, segundo as críticas que circulam, várias dessas evidências públicas não teriam sido devidamente rebatidas pelas autoridades, o que intensifica o mal-estar e o sentimento de indignação entre cidadãos e analistas. A questão central colocada é simples e contundente: será que é com visitas mediáticas e operações de imagem que Angola passará a ter um turismo funcional?
Para muitos críticos, a resposta é claramente negativa. Argumenta-se que, em vez de se gastar somas elevadas em acções promocionais de impacto duvidoso, o mais sensato seria canalizar recursos para resolver problemas estruturais que continuam a bloquear o desenvolvimento do turismo nacional.
Entre essas prioridades destacam-se a construção e reabilitação de boas estradas, a electrificação e o abastecimento de água nos pólos turísticos identificados, bem como a criação de condições reais para atrair investimento privado sustentável. Sem estes pilares, defendem os observadores, os rios, as paisagens, as quedas de água, as reservas naturais e outras riquezas turísticas de Angola continuarão apenas a existir como potencial desperdiçado.
A crítica é de que há muito volume financeiro mobilizado para “semear algo que não tem sequer frutos”. Na imagem usada por uma das fontes ouvidas, “a árvore do turismo não dá sinal de que vai florir”. A frase resume a percepção de que os investimentos e iniciativas anunciadas não se traduzem em resultados concretos, nem em melhoria da experiência turística, nem em dinamização económica efectiva.
Outro exemplo citado como símbolo da paralisia do sector é o projecto Okavango-Zambeze, que integra outros países da região e que poderia posicionar Angola de forma mais competitiva no mapa turístico africano. Contudo, segundo as críticas, o país continua atrasado neste domínio, enquanto os parceiros regionais avançam com maior velocidade e visão estratégica.
Numa altura em que o discurso oficial insiste na diversificação da economia, o turismo surge como uma das alternativas mais seguras para reduzir a dependência das receitas petrolíferas. Países como Botswana, Zimbabué, Zâmbia e Namíbia são frequentemente apontados como exemplos de como o turismo pode assumir um peso relevante na economia nacional quando existe planeamento, investimento e seriedade na execução.
Em África, particularmente no corredor oriental, vários países transformaram o turismo numa fonte robusta de divisas, emprego e dinamização territorial. Analistas defendem que Angola tem potencial para seguir o mesmo caminho, mas continua presa à falta de visão prática, à ausência de infraestruturas e à incapacidade de transformar riqueza natural em produto turístico competitivo.
O economista Samuel Felino reforça esta leitura ao considerar inconcebível que um país com tantas belezas naturais continue a negligenciar o turismo. Como exemplos concretos, aponta o abandono de locais de elevado potencial, como as Águas Quentes do Alto Hama, no Huambo, e a estância das Águas do Cota, no Cuanza Sul.
Para este economista, com rigor, seriedade e empenho institucional, o turismo poderia converter-se no verdadeiro “petróleo verde” de Angola, gerando divisas, emprego e desenvolvimento sustentável. Mas para isso, sustenta, o país terá de abandonar as operações cosméticas, as visitas de propaganda e a lógica de vitrina, substituindo-as por um plano real de infra-estruturação e valorização do território.
No centro desta contestação está, portanto, a ideia de que o fracasso do Ministro Márcio Daniel não se mede apenas pela falta de crescimento do turismo, mas sobretudo pela distância crescente entre o potencial gigantesco do país e a pobreza dos resultados alcançados até agora.
Enquanto isso, Angola continua a assistir ao desfile de promessas, anúncios e encenações institucionais, sem que o turismo deixe de ser uma promessa adiada e um sector à espera de liderança, visão e execução séria.
