Escassez alimentar persistente expõe fragilidades estruturais da indústria alimentar em Angola, contrariando as declarações do ministro Rui Miguêns de Oliveira
Produzir mais não é alimentar melhor: a contradição da política alimentar em Angola Escassez alimentar persistente expõe fragilidades estruturais da indústria alimentar em Angola, contrariando as declarações do ministro Rui Miguêns de Oliveira
Angola vive hoje uma contradição económica difícil de ignorar. De um lado, o discurso oficial celebra a redução das importações de bens alimentares básicos, apresentando-a como sinal de maturidade industrial, soberania económica e boa governação. Do outro, os indicadores sociais revelam uma realidade dura: a fome continua a marcar profundamente a vida de milhões de angolanos.
Os números não deixam margem para leituras complacentes. Estar entre os países com piores níveis no Índice Global da Fome, com mais de um quinto da população subnutrida e quase metade das crianças afetadas por má nutrição crónica, não é compatível com uma narrativa de sucesso. Não se trata de negar os avanços industriais alcançados, mas de reconhecer que eles têm sido insuficientes para responder ao problema central: o acesso efetivo aos alimentos.
A redução das importações de trigo, milho e óleos alimentares representa, sem dúvida, um ganho técnico e financeiro para o Estado. Poupar divisas é importante num país estruturalmente dependente do exterior. No entanto, produzir localmente não significa, automaticamente, alimentar melhor a população. Quando a inflação corrói o poder de compra e os salários permanecem baixos, a comida existe, mas não chega ao prato de quem mais precisa.
Os limites da “auto-suficiência” económica
É aqui que a noção de “auto-suficiência” revela os seus limites. A capacidade instalada das fábricas, por si só, não resolve a insegurança alimentar. Sem políticas de rendimento, sem cadeias de distribuição eficientes e sem mecanismos de controlo de preços, a produção nacional beneficia sobretudo os indicadores macroeconómicos, deixando de fora a dimensão social do desenvolvimento.
A persistente dependência externa em produtos essenciais — como arroz, trigo, proteínas animais e laticínios — reforça ainda mais esta fragilidade. A segurança alimentar exige mais do que substituição de importações pontual; exige uma estratégia integrada que articule agricultura, indústria, logística, rendimentos e proteção social.
Uma questão de política monetária e social
O problema de Angola, portanto, não é apenas produzir pouco, mas produzir num contexto em que grande parte da população não tem capacidade financeira para consumir o que é produzido. Enquanto esta realidade não for enfrentada com políticas públicas centradas nas pessoas, os avanços industriais continuarão a coexistir com o agravamento da fome.
Reduzir importações pode ser uma vitória económica. Erradicar a fome é uma obrigação moral e política. Confundir uma com a outra é o erro que Angola não pode continuar a cometer.
