“JLO destruiu o que funcionava”: Tchizé dos Santos critica modelo de governação e defende primazia do sector privado
A empresária e activista Welwitschea José dos Santos, conhecida como Tchizé dos Santos, voltou a marcar posição no debate público angolano ao afirmar que o actual modelo de governação “destruiu o que funcionava”, defendendo que o sector privado tem contribuído mais para o desenvolvimento real de Angola do que a ocupação de cargos públicos.
As declarações foram feitas num vídeo recentemente divulgado, no qual Tchizé dos Santos explica, de forma directa, as razões pelas quais nunca aceitou integrar cargos governamentais, apesar do seu percurso empresarial e da ligação histórica à elite política do país.
Do empresariado à crítica política
Durante mais de duas décadas, Tchizé dos Santos esteve associada à criação e gestão de empresas e projectos que marcaram o panorama económico, mediático e social angolano. Entre as iniciativas impulsionadas contam-se a Caras (Edição Angola), a Semba Comunicação, a TPA Internacional, os bancos BNI e Prestígio, a VIDA TV e o Club TEN, bem como diversos projectos sociais e associativos.
No desporto e na sociedade civil, destacou-se igualmente como presidente do Benfica de Luanda, fundadora do TEA Club e criadora dos Prémios Angola 35 Graus, iniciativas que, segundo a própria, geraram milhares de postos de trabalho e receitas significativas fora da esfera do Estado.
“O problema não é capacidade, é o sistema”
Na sua intervenção, Tchizé dos Santos sustenta que o problema central da governação angolana não reside na falta de competências técnicas, mas num sistema que, na sua leitura, transforma o poder político num fim em si mesmo, penalizando a iniciativa privada e desincentivando a eficiência económica.
Ao referir-se à governação de João Lourenço (JLO), afirma que reformas apresentadas como estruturantes acabaram por fragilizar sectores que funcionavam, afastando investidores e destruindo dinâmicas produtivas previamente existentes.
Sector privado como motor do desenvolvimento
Para Tchizé dos Santos, a experiência pessoal demonstrou-lhe que o sector privado cria mais valor económico, mais empregos e maior impacto social sustentável do que a ocupação de cargos públicos num sistema altamente centralizado.
Na sua visão, o Estado deveria assumir um papel de regulador e facilitador do crescimento, e não de concorrente directo ou controlador da actividade económica.
Uma voz incómoda no debate nacional
As declarações surgem num contexto de debate crescente sobre os limites das reformas económicas em Angola e sobre o impacto efectivo das mudanças anunciadas desde 2017. Para analistas, a posição de Tchizé é particularmente sensível por partir de alguém que circulou entre o poder político e o empresariado, mas optou por se afastar da governação directa.
A intervenção reforça uma narrativa cada vez mais presente no espaço público angolano: a de que o desenvolvimento sustentável exige menos controlo político, mais liberdade económica e resultados mensuráveis.
Entre escolhas pessoais e crítica estrutural
Mais do que um ataque pessoal, o discurso assume contornos de crítica estrutural ao modelo de governação, questionando a eficácia de soluções excessivamente centralizadas e defendendo uma redefinição profunda da relação entre Estado, economia e sociedade.
Num país ainda fortemente dependente do sector público, a sua mensagem reacende uma questão central do debate político e económico angolano: quem está, de facto, a criar valor e desenvolvimento real para Angola?
